Terra nenhuma
Essa terra nenhuma é minha! Aqui naquele buraco fundo moram duas pessoas. Três. As vezes somos quatro. Contando com meus ouvidos seis. Soma com seis braços, seis olhos, trinta dedos das mãos, trinta dos pés. Sessenta unhas, muitos cilhos, 3 línguas, 6 narinas. Aqui tem muita gente, depende do jeito que você olha. Vocês conhecem o caso da menina que não sabia olhar? Um dia apareceu um imenso mar na frente dela. Então ela começou a brincar de dar nomes para as coisas. O nome ensinou-a a olhar. Eu nunca fui de terra nenhuma e por isso resolvi colecionar histórias de outras gentes, roubei a memória alheia. Todas as minhas léguas são inventadas, não sou pessoa criada pra morar. Eu não tenho légua nenhuma, sorte alguma porque pra se ter alguma coisa é preciso ter um bolso. Onde se arranja um bolso? Deve ser no mesmo lugar em que se compram nomes. Eu moro no silêncio, me chamo ninguém de patria, nascida em 40 dias depois da chuva. Eu moro à cinco passos daqui: 1,2,3,4,5...depois do cinco vem o que? Depois do oceano é o que? Há algumas léguas do depois tem o que? Mais depois?E o imenso cabe aonde? É por isso que invento o que vejo. Aí não esqueço. Sou esquecida de nascença. Há muitos anos atrás eu morri e ninguém soube, eu tive alguns filhos depois da morte e não decorei seus nomes. Acho que sou filha de mim mesma. A minha pátria é aqui; no meu peito esquerdo. Sinto saudades do tempo que eu vivia nos meus dedos da mão, mas o tempo é assim. Muda. Um dia, quem sabe, chego lá. Cansei do aqui de sempre.
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