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Do mundo nada sei, mas invento em palavras

Eu vejo o vazio onde quer que eu vá. Passos apressados para lugar nenhum, urgência fantasia de um destino em suas mãos, propósitos imaginários com egos inflados. Eu só vejo nudez. Uma vez me disseram: "a pior nudez não é a do corpo". Foi uma senhora que me disse. Ela devia mesmo saber das coisas, já tinha vivido tanto mais que eu... Hoje eu entendo quando ando pelas ruas e vejo pessoas totalmente cobertas e completamente nuas. É na alma que fica a verdadeira vestimenta, isso anda em falta por aqui... ---------------------------------------------------------------------------------------- Existe um som que não sai da minha cabeça. São os meus passos. Eles me perseguem a todo instante, de olhos abertos ou em vigília. Não existe paz dentro de mim, meus próprios passos me perseguem, sem descanso. E me põe de pé outra vez, me põe a vaguear outra vez... como se houvesse sentido nisso tudo, como se houvesse pra onde ir... ------------------------------------------------------...

Banheiro amado Brasil.

O primeiro lugar que preciso descobri onde é que fica é o banheiro, pelo simples fato de que eles sempre tem algo de particular. Os banheiros públicos são terras conquistadas por todos. Esse que aqui estou já foi do Cleyton e da Amanda, do bonde das minas, de algum poeta esquecido e agora ele é meu. Todo meu e de meus detritos, da minha solidão, do meu inferno particular. A cidade ruge lá fora e eu por segundos tenho um lar. Alguém bate. Outro cidadão quer conquistá-lo:        - Não tem ninguém. Digo.       - E como é que nonguém responde? A voz guerrilheira responde do lado de fora.       - Respondendo ué.       - Tô apertado. Ele apela.       -  E eu tô aliviando. Retruco.       - Alivia aí parceiro.      - ParceirA RA.      - Esse banheiro é masculino.     - Era. Eu mudei a lei.     - e o que é lei?     - É algo f...
corpos-territórios conquistados por doenças-império epidemias expandindo o território-nação corpos-territórios transportando doenças-império pelo espaço-tempo vida-na-terra doenças-império anexando território nos corpos órgãos-nações e relações internacionais dentro do continente-corpo corpo-território que some dentro do grande território agora não mais metáfora, a t(T)erra

Eu me vi nua nos olhos dela e me assustei

Ei, moça! Cê tá me vendo? Moço, você me viu por aí? É que eu ando meio perdida. Eu tava dentro dos olhos daquela menina. Eu encontrei com ela outro dia, mas depois ela foi embora e me levou junto com ela. E agora eu não consigo mais me encontrar! Eu ando na rua me procurando dentro dos olhos das pessoas, mas eu fiquei presa bem dentro daquela menina. Eu me vi refletida no preto do castanho dos olhos dela. E se eu não encontrar ela por aí, vai ficar metade de mim nela. Você tem certeza que não me viu dentro dos olhos de nenhuma menina? Sem ela, eu já não sei quem sou. Sem ela, já sou metade de mim. E se eu nunca mais puder ser quem eu sou porque é ela é quem me é agora? --------------------------------------------------------------------------------- Eu abri a minha janela pra brincar no seu quintal Quando vi, era espelho Me olhei de forma tal Desnuda, em carne viva E escondida em carnaval Era você, era eu, nem sei De tanto que fronteira, já desaguei Sua brasa era meu peito,...

Achado perdido

A água limpa qualquer coisa estranha da entranha da carne mal tratada pelo tempo que escorre e vai pro ralo. -- Me sinto criança quando olho pro tempo. Bem como a areia quando encontra com o vento E vai pra looooongeeee... Lá onde a memória faz a curva, onde a visão já é mais turva, onde não se ouve mais lamento... -- RUA Vício é válvula de escape. Sou viciada em mim. Não sei senão ser eu mesma. Sou uma ilha. EU. MEU. Território de ocupação privada. Não sei escapar. Não há saídas. Todas as saídas levam pra dentro. Eu sou escrava das minhas necessidades. E, olha, nem todas são reais. Algumas eu inventei, outras senti, um bocado também ouvi por aí... --- Hoje eu sei porque a lágrima é salgada. Ela é feita de mar. Choro pra unir o meu oceano ao seu. Se fosse doce, acolhimento Mas oceano é tormento Saudade-sofrimento Me desfaço em lágrimas Me despeço em gotas salgadas.

Terra nenhuma

Essa terra nenhuma é minha! Aqui naquele buraco fundo moram duas pessoas. Três. As vezes somos quatro. Contando com meus ouvidos seis. Soma com seis braços, seis olhos, trinta dedos das mãos, trinta dos pés. Sessenta unhas, muitos cilhos, 3 línguas, 6 narinas. Aqui tem muita gente, depende do jeito que você olha. Vocês conhecem o caso da menina que não sabia olhar? Um dia apareceu um imenso mar na frente dela. Então ela começou a brincar de dar nomes para as coisas. O nome ensinou-a a olhar. Eu nunca fui de terra nenhuma e por isso resolvi colecionar histórias de outras gentes, roubei a memória alheia. Todas as minhas léguas são inventadas, não sou pessoa criada pra morar. Eu não tenho légua nenhuma, sorte alguma porque pra se ter alguma coisa é preciso ter um bolso. Onde se arranja um bolso? Deve ser no mesmo lugar em que se compram nomes. Eu moro no silêncio, me chamo ninguém de patria, nascida em 40 dias depois da chuva. Eu moro à cinco passos daqui: 1,2,3,4,5...depois do cinco vem ...

Impressões

o ser-pipa a pipa é um espaço delimitado no ar. este espaço pertence ao território em cujos pés que a seguram estão fixados. a pipa é uma extensão de um território terrestre em espaço aéreo. é como a guiana francesa e todas as outras colônias pré independência. a pipa é um astronauta. a pipa é um navegante e é o vento a pipa é um território conquistado a todo momento e uma bandeira a pipa é um território conquistado por quem só possui o espaço delimitado dos seus pés