Banheiro amado Brasil.


O primeiro lugar que preciso descobri onde é que fica é o banheiro, pelo simples fato de que eles sempre tem algo de particular. Os banheiros públicos são terras conquistadas por todos. Esse que aqui estou já foi do Cleyton e da Amanda, do bonde das minas, de algum poeta esquecido e agora ele é meu. Todo meu e de meus detritos, da minha solidão, do meu inferno particular. A cidade ruge lá fora e eu por segundos tenho um lar. Alguém bate. Outro cidadão quer conquistá-lo:

       - Não tem ninguém. Digo.
      - E como é que nonguém responde? A voz guerrilheira responde do lado de fora.
      - Respondendo ué.
      - Tô apertado. Ele apela.
      -  E eu tô aliviando. Retruco.
      - Alivia aí parceiro.
     - ParceirA RA.
     - Esse banheiro é masculino.
    - Era. Eu mudei a lei.
    - e o que é lei?
    - É algo facilmente mutável pelo seu dono.
    - Esse banheiro é público.
    - Era.
   - Vou chamar o gerente.
   - Ele não significa nada para meu trono.
   - Maluca, drogada, tá fazendo merda aí dentro!
   - E não é o lugar mais apropriado para se fazer?
   - O que?
   - Merda.
 
Enfureço o meu inimigo e acabo por ter minhas fronteiras arrombadas. Apelaram para a violência, sempre apelam. Eu ainda de calças arriadas tento resistir mas meu corpo é jogado na calçada para fora do estabelecimento. Estou com a bunda de fora. A lua no céu. Pela primeira vez experimento a sensação de se estar com o cú pra lua. Nada ganhei com isso. O cú pra lua é igual aquela história do arco- iris, do descobrimento do Brasil, a Deus, o dinheiro, a Madonna,os Beatles, a democracia, a ONU, ao estado , as fronteiras, ao papa, ao homem bom. Tudo é falso e a unica coisa a existir nesse momento é o meu cú sujo de merda na calçada irregular de frente ao bar imundo dessa esquina. Um gato branco cruza o meu caminho e nada vai bem pois quando tudo está branco demais é aí que mora o perigo. Uma mulher corre apressada para pegar o onibus enquanto grita palavras de despedida para alguém. Ela mora longe. Aqui nessa cidade é possível saber quem mora longe ou perto só pelo rosto. Essa tal longe nunca aproxima, você pode estar dentro de casa, deitado na sua cama que nunca deixa de ser longe. Longe do mar, dos acontecimentos históricos, do emprego, da grana, do ano novo, da taxa de mortalidade, longe da globo, dos artistas da novela, do mapa, de todos os cartões postais. O banheiro não. Há sempre um vaso perto de você para ser conquistado. Dizem por aí que até isso está mudando e que estão cobrando pedágio em alguns "toalletes" que é como os chiques falam. " Ô moço, moço, me vê duas merrecas pra eu cagar na minha pátria, mijar no estado e depois mandar tudo pro esgoto do mundo que é o único lugar que os nossos trajetos se unem" O queijo bola e a mortadela se dão um profundo beijo processados em coco bem no meio do mar.
 
   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tem alguém aí?

Terra nenhuma